IX BAILE DO SARONGUE

TURBILHÃO

Realizado no Clube Monte Líbano em 23 de fevereiro de 2017

Clip-doc do Baile do Sarongue Turbilhão

ALEGORIA DO CAOS

Das profundezas abissais, tema do Baile de 2016, fomos dragados do fundo do poço por uma ventania surreal. Passadas as Olimpíadas de 2016, uma espiral de forças sinistras culminaram na decomposição do ambiente político, econômico e social. O preconizado legado dos jogos olímpicos revelou-se uma tragédia grega nacional. Oportunamente, criaturas obscuras ressuscitaram das frestas sombrias do passado. Comunismo, impeachment, golpe de Estado e ditadura, voltaram a mobilizar as mentes, destilando intolerância. Aos poucos, os corações foram polarizados. A sociedade se dividiu como nunca. Aproxima-se o caos. A alma festiva nacional se perde neste turbilhão.

 

É, no entanto, o carnaval, o território simbólico da inversão total de valores. Quanto maior a crise, maior é o carnaval. O tema do Baile do Sarongue de 2017 se inspirou, assim, na inversão da força desse tufão devastador. O artista convidado, Franklin Cassaro, auto-denominado "escultor de vento", se inspirou no tema Turbilhão para criar a cenografia cinética que moveu o salão principal deste ano. Na varanda do salão, Luciano Mestre Baloeiro, construiu a instalação de pipas gigantes. Todas as instalações giravam ao vento.

 

Momo, o Rei da inversão carnavalesca mandou avisar: polarização entre forças radicalmente antagônicas não é, necessariamente, paralisante. Ela faz girar, tira as pessoas do lugar. EVOÉ MOMO!

CARNAVAL RITUAL

O Baile do Sarongue segue sua missão: reativar e renovar a cultura de carnaval de salão, recombinando elementos do ritual com novos campos de experimentação em arte carnavalesca. Dentro dessa dinâmica, engajamento coletivo é fundamental.

 

O Baile não se restringe a uma só noite, a preparação o integra. Por trás de todo o processo existe o princípio de comunhão festiva,  tendo por fim a formação de um corpo coletivo. Forma-se uma espiral de ações que definem o ritual:

A busca da Chave do Baile inicia o movimento, promovendo pontos de encontro em locais inesperados, anunciados na véspera, durante o mês de janeiro. Em paralelo, são desenvolvidas a concepção e elaboração das fantasias, individuais e coletivas. Na semana da montagem da instalação, divulga-se o local do Baile e recrutam-se os voluntários para a montagem. A espiral de encontros transfere e catalisa a energia movimentada durante o mês para a montagem do salão, finalizando o processo com a catarse da grande noite anual.

 

Um dos pontos altos da noite é a entrega da chave da Cidade-Sarongue ao Rei Momo. Este ano, a primeira Rainha Momo, Exma. Rainha-Cantora Valéria Lima, sacralizou o ritual com muito samba, suor e suingue.

 

Visando a experiência carnavalesca integral ( o baile de carnaval como obra de arte total, segundo Lasar Segall), diversas ferramentas são acionadas. Dentre elas, um desafio, um dos sete princípios do evento: reconectar os foliões com as danças circulares que agitavam os bailes de carnaval do passado. O tradicional baile de salão havia preservado uma forma de dança orbital, que modula as celebrações dos povos, desde os primórdios da humanidade.

A organização da roda entrelaçada pelo ritmo estabelece elos com a unidade em múltiplas instâncias; induz a passagem do singular para o comunitário, para um estar junto em vibração. A sinergia rotacional coloca os povos em ressonância com o movimento cósmico. Dentro do turbilhão a existência humana atinge o mais alto grau de afirmação, seja social, cultural ou espiritual. (Dança - Um caminho para a totalidade, de Bernhard Wosien)

Baile do Theatro Municipal do Rio em 1955

O sentido simbólico dessas formações está profundamente ligado à ordem social e à dinâmica universal.

 

Parte dos 7 princípios do Baile do Sarongue, a dança circular coletiva integra a concepção da festa de 2017.

Danças circulares coletivas em diferentes culturas

CENOGRAFIA CARNAVALESCA CONTEMPORÂNEA

Tendo em mente o tema proposto, o artista se inspira na teoria do caos para criar a instalação que complementa a ação carnavalesca deste ano. A parte reflete o todo e o todo, a parte. Estruturas ego-semelhantes, rotacionadas ao vento, modulam o movimento coletivo no salão.

O Baile do Sarongue Turbilhão convida Franklin Cassaro para a sua 9ª edição.

Piramide de Sierpinski

Cassaro rima geometria fractal com carnaval. Milhares de tetraedros de papelão dobrado formam um conjunto auto-generativo. A obra é batizada de Sambaedro. No salão modernista do Clube Monte Libano, a instalação aérea de Cassaro se completa com a dança das pirâmides coreografada por Celina Portella. Três bailarinas acrobatas interagem com dois tetraedros sobre rodas, girando entre os foliões. Para ferver ainda mais o caldeirão, contamos com a Jacaroa e a Jiboia, esculturas alegóricas coletivas de Paula Dager.

No salão deste ano, celebramos forças antagônicas que geram encontro.

CELACANTO PROVOCOU MAREMOTO** no Sarongue Abissal, POLARIZAÇÃO GERA TURBILHÃO no Sarongue fractal de 2017, no primeiro carnaval científico de salão, celebra-se a despolarização Momesca: TODOS JUNTOS EM TURBILHÃO!

* Lasar Segall considerava o baile de carnaval um empreendimento estético que envolvia a utopia da criação de uma obra de arte total, promovedora da síntese e do fim dos gêneros em Arte e, com isso, de uma nova relação entre público e obra de arte. ( Texto de Claudia Valladão de Mattos, extraído do catálogo da exposição Lasar Segall Cenógrafo, realizada do CCBB em 1996)

** CELACANTO PROVOCA MAREMOTO é um intrigante grafite que se proliferou pelos muros do Rio durante a ditadura nos anos 70.